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08/09/2016

Há novos dragões do lodo no Algarve e isso é um bom sinal

Não cospem fogo nem metem medo. Pelo contrário, são inócuos para nós e nem os conseguimos ver sem ser ao microscópio. Também não abundam as espécies conhecidas de dragões do lodo, a designação vulgar destes bichinhos que vivem entre os grãos de areia ou no lodo: só estão identificadas cerca de 200 espécies a nível mundial. A lista cresceu agora com a descoberta de mais duas ao largode Faro e Albufeira.
Ricardo Neves, da Universidade de Basileia, na Suíça, é o principal autor da descoberta. Ele próprio faz parte de um nicho: “Apenas cerca de dez investigadores em todo o mundo estudam activamente estes animais”, conta o biólogo português, de 39 anos.

Os dragões do lodo integram a fauna que vive nos sedimentos arenosos e lodosos nas linhas costeiras e que tem sido um tanto esquecida pela ciência. “Nas últimas décadas, tem sido dada muita atenção ao estudo da macrofauna aí existente (por exemplo, anémonas, caranguejos, estrelas-do-mar), o que contrasta com a pouca disponibilidade para o estudo de animais com dimensões entre um milímetro e 38 micrómetros — a chamada ‘meiofauna’. São exemplo desta comunidade de animais os pequenos crustáceos e vermes marinhos”, explica Ricardo Neves.

Quanto aos dragões do lodo, geralmente têm menos de um milímetro de comprimento. Foram descobertos pela primeira vez em 1841, no Norte de França. Desde então, as 200 espécies descritas pelo planeta são todas marinhas, vivendo em zonas marinhas ou estuarinas, mas nunca em água doce. Encontram-se desde as zonas entre marés até grandes profundidades. Portanto, podemos encontrar dragões do lodo na praia, quando a baixa-mar deixa a descoberto a zona entre marés. Sem, no entanto, motivos para receios (“são totalmente inofensivos para os humanos”, sossega o biólogo).

Para os cientistas, os dragões do lodo têm ainda outro nome: quinorrincos, pois pertencem ao filo (grande grupo de classificação de seres vivos)Kinorhyncha. “O seu nome provém do grego kineo (que se movimenta) erhynchos (focinho) e deve-se aos movimentos de retracção e alongamento da região anterior do corpo deste animal”, explica Ricardo Neves.

Se pouco se sabe sobre os quinorrincos pelo mundo fora, o seu desconhecimento no território português é ainda maior. Havia apenas uma referência à sua presença em Portugal, revelada numa conferência científica — mas sem sequer dizer nomes de espécies.

Ricardo Neves e alguns colegas quiseram mudar essa situação. Entre Fevereiro de 2012 e Setembro de 2014, puseram-se à procura de dragões do lodo. Andaram pela costa algarvia, entre Portimão e Olhão, incluindo a ria de Alvor e a ria Formosa. Por Tróia e Sesimbra. E ainda na ria de Aveiro. Para os apanhar, em alto-mar usaram uma draga, que recolhia sedimentos e funcionava como um saco. Na zona entre marés, deslocaram-se a pé e apanhavam as amostras com as mãos ou uma pá.

“Fizemos, de facto, a primeira grande investigação sobre estes animais em Portugal, em vários pontos do país, e encontrámos várias espécies. Destas, duas são totalmente novas para a ciência: a Echinoderes lusitanicus e aEchinoderes reicherti”, conta o biólogo, sublinhando que nestas andanças a equipa contou com o apoio no terreno do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, o Instituto Português de Malacologia ou a Universidade de Aveiro. “No total, encontrámos mais de dez espécies. No entanto, o número final requer confirmação, porque ainda estamos a investigar os espécimes recolhidos.”

A descrição científica das duas espécies novas, encontradas no Algarve apenas, a cerca de 100 metros de profundidade, já está publicada na revistaMarine Biology Research, num artigo assinado, além de Ricardo Neves, por Martin V. Sørensen (Museu de História Natural da Dinamarca, em Copenhaga) e Maria Herranz (Universidade da Columbia Britânica, em Vancouver, Canadá).

Os exemplares de Echinoderes lusitanicus e Echinoderes reicherti têm à volta de 0,29 milímetros de comprimento. “São muito pequenos para se verem à vista desarmada. Algumas espécies têm uma coloração mais alaranjada e, se estiverem umas dezenas deles acumulados numa placa, conseguimos aperceber-nos de uns ‘salpicos’.”
Sentinelas da poluição

Para afirmar que a Echinoderes lusitanicus e a Echinoderes reicherti são espécies novas, a equipa baseou-se na sua morfologia externa, comparando-a com a de outras espécies já descritas. “O nome atribuído à primeira espécie foi por ter sido descoberta na costa portuguesa, enquanto o da última homenageia Heinrich Reichert, professor emérito da Universidade de Basileia e zoólogo conceituado.”
Desenho da nova espécie Echinoderes reichertiRICARDO NEVES/MARTIN SØRENSEN

Mas lançámos uma provocação ao biólogo: afinal, o que têm os quinorrincos de especial? Antes de mais, sua presença é um sinal da qualidade dos sedimentos das zonas costeiras, zonas que têm um valor socioeconómico elevado devido ao turismo e à pesca. “A presença de quinorrincos na costa portuguesa é positiva, pois contribui para a biodiversidade desse ecossistema e deixa antever um baixo nível de poluição”, diz Ricardo Neves.

“Os quinorrincos são importantíssimos para a avaliação do impacto humano, por exemplo nas zonas costeiras, ou de distúrbios causados por actividades específicas, como a aquacultura”, acrescenta. “Estudos recentes deixam claro que são extremamente sensíveis à acumulação, por exemplo, de sulfuretos. Elevadas concentrações destes compostos levam à sua total eliminação. São verdadeiras sentinelas para a avaliação de níveis de poluição.”

Ricardo Neves diz ainda que os quinorrincos são “intrigantes” e que têm “um valor intrínseco muito elevado”. Explica porquê. “O filo Kinorhyncha pertence a um super-filo que se chama Ecdysozoa, onde também estão os artrópodes (grupo que inclui os bem conhecidos crustáceos, aranhas e escorpiões, insectos, entre outros) e outros filos menos conhecidos”, frisa. “No geral, são animais que fazem a muda da cutícula, o esqueleto externo. As relações entre a história evolutiva destes grupos não é totalmente conhecida. Há muitas dúvidas quanto às relações filogenéticas (de parentesco) entre os vários grupos desse super-filo. Portanto, os quinorrincos são muito interessantes para podermos compreender a evolução de todos os grupos que compõem o Ecdysozoa”, explica. “Uma dúvida maior na zoologia é o da interpretação do corpo de um quinorrinco como segmentado ou não. E se é segmentado, a questão seguinte é a de perceber se essa segmentação do corpo tem as mesmas origens evolutivas da segmentação observada nos artrópodes.”

Eles poderão ainda contar muito sobre a história evolutiva dos invertebrados. “Apesar de diminuto, um quinorrinco tem um sistema nervoso central, uma musculatura complexa, órgãos excretores ou vários órgãos sensoriais. É importantíssimo, por exemplo, saber como está organizado o sistema nervoso central e periférico, descrever a sua microanatomia, conhecer os neurotransmissores implicados, e comparar toda esta informação com o que já se sabe sobre outros animais, para daí tirar ilações sobre a evolução do sistema nervoso nos invertebrados. Ou seja, é aos detalhes que vamos buscar o conhecimento que depois nos permitirá ver, finalmente, a big picture.”

Fonte: https://www.publico.pt/ciencia/noticia/ha-novos-dragoes-do-lodo-no-algarve-e-isso-e-um-bom-sinal-1738212

Ave australiana canta aos ovos para avisar que está calor



Desenvolvimento do mandarim é influenciado pelo canto dos progenitores. Descoberta mostra que há espécies que podem adaptar-se melhor às alterações climáticas.









É uma surpresa no mundo animal. Uma ave australiana consegue activamente influenciar o desenvolvimento da sua descendência quando os embriões ainda estão nos ovos. Nos dias mais quentes, os progenitores da espécie mandarim (Taeniopygia guttata) têm um canto especial para os seus ovos. Isso faz com que os pintos, depois de saírem dos ovos, cresçam menos do que outros indivíduos da espécie que não ouviram o canto especial, mostra um estudo publicado na revista científica Science.

Estudos feitos no passado mostravam que os embriões dentro dos ovos conseguiam ouvir e até emitir sons. Este tipo de comunicação tem importância na vida das aves. Segundo o artigo: “Já se tinha descoberto que a comunicação acústica pré-natal pode influenciar a sincronização da altura em que os pintos saem do ovo e permitir aos embriões pedirem aos progenitores para incubarem os ovos.”

Mas esta capacidade dos mandarins tinha passado despercebida até agora. Estas aves vivem em habitats secos na Austrália. Uma das suas características comportamentais é produzirem ninhadas quando há bom tempo, independentemente das estações do ano.

Mylene Mariette, co-autora do artigo com Katherine Buchanan, ambas do Centro de Ecologia Integrativa da Universidade de Deakin em Waurn Ponds, na Austrália, foi quem identificou a existência destes cantos especiais, que tanto as fêmeas como os machos fazem quando o parceiro ou a parceira está longe do ninho.

A curiosidade levou Mylene Mariette a tentar descobrir a razão destes cantos. A investigadora verificou que os cantos só se davam nos últimos cinco dias do desenvolvimento dos embriões dentro dos ovos e apenas quando a temperatura máxima desse dia ultrapassava os 26 graus Celsius.

Para tentar compreender o efeito destes cantos, a equipa fez uma série de experiências em ambiente controlado. Na primeira, as investigadoras submeteram um grupo de ovos de mandarim, nos últimos cinco dias de desenvolvimento, aos cantos descobertos por Mylene Mariette que entretanto foram gravados. Um segundo grupo de ovos foi submetido às mesmas condições de humidade e temperatura, mas com os cantos normais.

Ao nascerem, os pintainhos de ambos os grupos tinham o mesmo tamanho normal. Mas passados alguns dias, as investigadoras mediram os pintainhos e verificaram que os que tinham sido submetidos ao canto especial eram mais pequenos. “Isto significa que o ambiente acústico antes do nascimento tem um impacto maior do que pensávamos”, sublinha Mylene Mariette, citada numa notícia da BBC News.

A equipa pensa que o corpo menor é uma resposta a um clima mais quente. “Com um corpo mais pequeno, os mandarins perdem calor mais facilmente”, explica Mylene Mariette, citada numa notícia da Science. Além disso, as cientistas colocam a hipótese de que um corpo mais pequeno evita reacções celulares com efeitos negativos que são mais frequentes quando a temperatura ambiente é maior.

Mas as mudanças desta população não se ficam por aqui. As aves submetidas aos cantos especiais têm tendência a fazer o ninho num ambiente mais quente do que o outro grupo. Além disso, quando submetidas a temperaturas maiores, elas põem mais ovos do que as aves maiores que não ouviram o canto a anunciar mais calor. Por outro lado, em ambientes mais frios, são as aves maiores que põem mais ovos.

Este tipo de controlo no desenvolvimento dos pintos, que tem influência no próprio comportamento quando são adultos, pode ser importante num mundo cada vez mais quente devido às alterações climáticas.

“Não quer dizer que estas aves vão ser capazes de se reproduzirem a temperaturas extremas”, avisa Mylene Mariette, citada pela BBC News. “Mas o que é encorajador é que é uma estratégia que os pássaros usam para ajustar o crescimento da sua descendência à temperatura do ambiente.”

Fonte: https://www.publico.pt/ciencia/noticia/ave-australiana-canta-aos-ovos-para-avisar-que-esta-calor-1741911

03/02/2015

Ecologia dá ajuda a vítimas de violência doméstica

É um projeto innovador em Portugal aquele une ecologia e psicología no apoio às vítimas de violência doméstica.

O que é que ecologia e psicologia têm a ver uma com a outra? Aparentemente nada, mas possivelmente tudo, pelo menos de acordo com um projeto inovador no nosso país, que pretende usar as duas áreas para um mesmo fim: melhorar o bem-estar das vítimas de violência doméstica.
Caminhar pela praia, observar aves e conhecer o Gerês são algumas das atividades inseridas no ‘CarryOn’, hoje apresentado em Braga e que resulta de uma parceria entre a Sociedade Portuguesa de Vida Selvagem (SPVS), a Escola de Psicologia da Universidade do Minho, o Município de Braga e o Grupo de Ação Social Cristã de Barcelos.
A ideia é que, até março de 2016, cerca de uma centena de vítimas de violência doméstica e os seus filhos possam beneficiar de um conjunto de ações que «contribuam de forma clara para o empoderamento destas pessoas, promovendo a sua inclusão social, a capacitação individual e o bem-estar», explica a bióloga Flávia Alves, da SPVS. Isto sem esquecer o apoio psicológico, que as vítimas já devem ter e que se irá manter. No futuro, a ideia é estender esta ligação a outros públicos, como pessoas carenciadas e seniores.

Fonte: http://www.destak.pt/artigo/218523-ecologia-da-ajuda-a-vitimas-de-violencia-domestica